segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Mulheres na História da Matemática: ousadia e conhecimento

Estudos do professor João Batista do Nascimento evidenciam a participação da mulher no campo científico, especificamente o da Matemática, e revelam questões discriminatórias historicamente construídas em relação à presença feminina nesse tradicional reduto masculino. Entretanto, segundo o pesquisador, apesar dos interditos, algumas, desde os primórdios dos séculos, desafiaram esse cânone produzindo conhecimento interdisciplinar ao agregarem nuances pedagógicas ao saber matemático –  como é o caso de Theano, nascida em 546 a.C.,  primeira mulher a frequentar a escola Pitagórica destacando-se como filósofa e física; e de Rosvita de Gandersheim, teatróloga, professora e autora de uma metodologia para ensinar a teoria dos números por meio da linguagem cênica.

Na sequência expositiva de seu estudo, o pesquisador nomeia outras que também romperam os padrões matemáticos patriarcais. E neste sentido, faz uma incursão pela Literatura Universal avaliando que a engenhosidade da personagem Elisa (In: Eneida, de Virgílio) foi decisiva para resolver questões de cálculo isoperimétrico, ao transformar um couro de boi em fios para delimitar a área de uma muralha em torno da lendária Cartago.

Situando a história das mulheres no contexto dos anos 380 da Era Cristã, João Nascimento recupera a contribuição de Hipátia (ou Hipácia) para o estudo da geometria, registrando que ela, em razão da reconhecida capacidade, assumiu o mais alto posto científico à época: a direção do Museu de Alexandria.

Na França do Século das Luzes, para vencer as barreiras discriminatórias, Grabrielle Emilie Tonnelier de Breteuil (Madame/Marquesa Du Châtelet) usou uma estratégia nada convencional aos padrões da época: vestiu-se com roupas masculinas para ter acesso ao círculo de matemáticos que frequentavam as cafeterias parisienses e, assim, defender as próprias teses. Foi pela coerência dessas proposições que, segundo o pesquisador, Madame Du Châtelet notabilizou-se nos meios acadêmicos culminando com a tradução comentada da obra Principia de Newton e a publicação do livro Institutions de Physique, no qual defendia as ideias de Leibniz sobre Cálculo Diferencial e Integral.

Maria Gaetana Agnesi, diz o autor, também esteve envolvida com as teorizações sobre Cálculo Diferencial e Integral, destacando-se na comunidade científica por expressar profundo conhecimento desse conteúdo nos debates e nas publicações Propositiones Philosophicae, coletânea de ensaios englobando vários temas das ciências exatas e naturais, e Instituzioni Analitiche (2 volumes), obra  que, traduzida para o inglês, influenciou, em diversos países, a bibliografia atual sobre o assunto. Pelos estudos e competência demonstrados, em 1749, Agnesi foi nomeada docente da Universidade de Bolonha pelo Papa Benedito XIV.

A vida e a obra do matemático Arquimedes de Saracusa foram a pedra de toque para que a francesa Marie-Sophie Germain (1776) se interessasse por matemática, mesmo a contragosto dos pais. Objetivando ingressar na Ecole Polytechnique -- à época, um Centro de Ciência e Tecnologia  proibido às mulheres--Marie-Shopie fez-se passar por Monsieur Antoine-August Le Blanc, aluno que não frequentava as aulas. O disfarce provocou várias situações vexatórias, mas deu certo: ela ganhou a respeitabilidade do mestre e a possibilidade de corresponder-se com o matemático alemão Johann Carl Friedrich Gauss, de quem se tornou aluna e amiga. Esse aprendizado resultou, entre outros: o aperfeiçoamento do Último Teorema de Fermat: a teoria sobre as vibrações que contribuem para manter as estruturas (teoria aplicada na Torre Eiffel-Paris, 1889); o trabalho sobre Superfícies Elásticas, pelo qual ganhou prêmio da Academia Francesa de Ciência, sendo a primeira mulher aceita nessa congregação. Em reconhecimento a esses estudos, Carl Gauss solicitou à universidade de Göttingen (Alemanha) certificar o trabalho de Marie-Sophie como tese de doutorado.

A escocesa Mary Fairfax Somerville, em pleno século XIX, autodidaticamente aprendeu Cálculo Diferencial e Integral no Traité de Mécanique Celeste, do matemático francês Pierre Simon Laplace. Como culminância desses estudos, em 1830, ela publicou o livro The Mechanisms of the Heavens, no qual incluiu fundamentos matemáticos e uma série de diagramas, tornando mais acessível a teoria de Laplace e, em 1832, a Preliminary Dissertation on the Mechanisms of the Heavens. Por essas contribuições, a Royal Society of London homenageou Mary Somerville com uma escultura do busto da cientista, a cuja inauguração  não foi convidada por ser proibida a entrada de mulher.

Para João Batista Nascimento, talvez o frio asiático e o afeto familiar tenham sido responsáveis pela iniciação de Sonja Kovalevsky no saber matemático, visto que, em razão do rigoroso inverno, o quarto da jovem russa foi forrado com as anotações paternas sobre cálculo. Confinada nesse aconchego, resolveu estudar aqueles apontamentos. Daí foi um passo para aprender Cálculo Diferencial e Integral, e matricular-se na Escola Naval de S. Petersburgo. Barreiras sociais e familiares a fizeram optar pelo casamento com Wladimir Kovalevsky, o que lhe possibilitou conhecer outros centros de estudos, contatar com expressivos cientistas russos e ser admitida, em 1894, como docente de matemática na Universidade de Estocolmo.  De suas investigações sobre Equações Diferenciais Parciais (Teorema de Cauchy-Kovalevsky), obteve o grau de Doutora em Filosofia pela Universidade de Göttingen e, em 1888, com um trabalho sobre Problema de Rotação de um Corpo Sólido em Torno de um Ponto Fixo conquistou o Prêmio Bordin, concedido pela Academia Francesa, além do título de primeira mulher a ingressar na Academia Russa de Ciências.

Amalie Emmy Noether, algebrista e matemática, defendeu em 1907, orientada por Paul Gordan, tese de doutorado Sobre Sistemas Completos de Invariantes para Formas Biquadradas Ternárias. Perseguida pelo nazismo, a cientista exilou-se nos Estados Unidos onde integrou o corpo docente do Instituto Avançado de Princeton.

Da história de vida da sérvia Mileva Maric, João Nascimento registra que ela, aos 17 anos, ingressou no Instituto Politécnico de Zurique (ETH) para estudar matemática, especializando-se em geometria riemanniana e cálculo tensorial. Entretanto, diz o pesquisador que, apesar da competência,  Mileva, por ser esposa do físico alemão Albert Einstein, não escapou dos epítetos discriminatórios que avaliavam o saber matemático dela comparado à “genialidade” do marido.

Fonte de pesquisa: http://www.jornaliaras.ufpa.br/index.php?option=com_content&view=article&id=59%3Amulheres-na-historia-da-matematica-ousadia-e-conhecimento&catid=5%3Aedicao-3-marco--abril&Itemid=13

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Rosalind Franklin

Rosalind Franklin: "mãe do DNA", pioneira molecular comemoraria hoje se fosse viva,  o seu 93° aniversário. Biofísica é considerada uma das mulheres mais injustiçadas da ciência. Nada melhor do que homenagear uma das nossas revolucionárias, falando um pouco sobre a sua história.
 
Anthony Hope, conceituado escritor inglês do fim do século XIX, disse certa vez que “poderia escrever um livro sobre a injustiça dos justos”. Injustiça científica foi o que sofreu a jovem biofísica inglesa Rosalind Franklin. Nascida de uma família judia de classe média alta, Rosalind era a filha caçula de um pai extremamente protetor que a imaginou apenas casada e com filho, não tendo, portanto, nenhuma aspiração profissional. 

Rosalind Franklin
Porém, desde criança, Franklin mostrou grande aptidão para a ciência e, aos 15 anos, decidiu que queria ser cientista. Em 1941, graduou-se em Físico-Química no renomado Newnham College, em Cambridge, onde trabalhou com William Lawrence Bragg, que usava a difração por raios x para revelar a estrutura de cristais.

Franklin escolheu analisar estrutura física de materiais carbonizados utilizando raios x. Em 1947, começa a trabalhar no Laboratório Central dos Serviços Químicos em Paris, onde consolida a sua reputação internacional em cristalografia. De volta à Inglaterra, em 1951, assume um posto no laboratório de biofísica do britânico Maurice Wilkins.

Rosalind Franklin e Maurice Wilkins
No início dos anos 1950, havia três equipes liderando a corrida em busca da estrutura do DNA. O grupo americano, liderado pelo bioquímico Linnus Pauling do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Cal Tech) e dois grupos ingleses, um da Universidade de Cambridge, liderado por Francis Crick e James Watson, e outro do King’s College de Londres, encabeçado por Maurice Wilkins – ou seja, o mesmo laboratório em que Rosalind foi trabalhar.

Felizmente para Franklin, os seus resultados foram rápidos e muito bons. Em 1952, ela conseguiu, por meio de raio x, excelentes imagens da molécula de DNA. Em uma delas, a que ficou conhecida como “Fotografia 51”, via-se a molécula de DNA com excelente resolução. Um aluno de doutoramento de Franklin, Raymond Gosling, que tentava concluir sua tese sem a ajuda da sua orientadora, não conseguiu interpretar a fotografia 51 e a mostrou, sem que Rosalind soubesse, a Wilkins, que também compartilhou a imagem, novamente sem a anuência de Rosalind, com Crick e Watson, colegas de Cambridge. 

Rosalind Franklin
Coube a Watson e Crick terem o “insight” que Rosalind não teve e, como conseqüência, publicaram na edição da revista “Nature” de 1953 uma proposta sobre a estrutura da molécula de DNA. Wilkins escreveu um comentário no artigo e o nome de Rosalind Franklin não foi nem citado.

Durante o período em que passou no King’s College de Londres, Rosalind sofreu preconceitos tanto por ser judia como por ser cientista, em uma época em que a participação feminina na ciência era pequena. Com o ambiente no King’s insuportável e as diferenças entre Franklin e Wilkins aumentando a cada dia, após dois anos, Franklin decide ir embora. Ela viria a morrer em 1958, vítima de câncer no ovário, aos 37 anos, causado pela radiação a que se sujeitou durante os estudos pioneiros sobre um vírus da planta do tabaco.

Rosalind Franklin
A Academia Sueca de Ciências não confere prêmios postumamente. E Rosalind já havia falecido quando Watson, Crick e Wilkins foram agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina em 1962. Porém, em momento nenhum, o trabalho de Rosalind foi reconhecido. Cartas trocadas entre Watson, Crick e Wilkins mostram que eles tinham consciência de que não conseguiriam sem ela. Dias após a publicação na revista “Nature”, Wilkins escreve para Crick: “E pensar que Rosie teve todas aquelas imagens em 3D por nove meses e não viu uma hélice. Cristo.” Alguns historiadores da ciência defendem que ela foi cautelosa e evitou conclusões precipitadas a respeito dos seus resultados. Outros afirmam que ela não ousou o suficiente para chegar à estrutura atualmente aceita.

Rosalind Franklin ficou para a história como a “Dama Negra do DNA”, como uma cientista injustiçada por décadas e que somente nos últimos anos teve o seu trabalho reconhecido. E hoje é vista não apenas como uma grande cientista, mas também como um ícone feminista, por ousar quebrar todos os paradigmas conservadores e machistas que existiam na sua época.

http://www.opovo.com.br/app/opovo/cienciaesaude/2012/02/04/noticiasjornalcienciaesaude,2777785/rosalind-franklin-a-dama-negra-do-dna.shtml

sábado, 13 de julho de 2013

A história da mulher no teatro

No início da história do teatro, só os homens podiam participar das encenações e, para os papéis femininos, os atores gregos se utilizam de máscaras. Hoje em dia, sabemos que muita coisa mudou. Mas quando afinal as mulheres puderam subir ao palco e dividir a cena com os homens?

Atravessando a história das tradições cênicas medievais, foi na Itália que houve uma verdadeira recriação das estruturas teatrais por meio das representações do chamado teatro humanista. No século XVI, ocorreu um intenso processo de profissionalização de atores, com o surgimento da chamada "Commedia Dell'Arte", em que alguns tipos representados provinham da tradição do antigo teatro romano, como as figuras do avarento e do fanfarrão.

Devido às inúmeras viagens que as pequenas companhias de Commedia Dell'Arte empreendiam por toda a Europa, este gênero exerceu grande influência sobre o teatro realizado em outras nações. Um século depois, a Itália experimentou grandes evoluções cênicas, muitas delas ainda servem de estrutura ao teatro atual. E foi justamente nesse mesmo período que as mulheres passaram a fazer parte das atuações teatrais, na França.

Uma das atrizes que outrora havia sido integrante do grupo de Molière começou a fazer parte do elenco das peças de Jean Racine, poeta trágico, dramaturgo, matemático e historiador francês, considerado, ao lado de Pierre Corneille, um dos maiores dramaturgos clássicos da França.

O nome da atriz? Therese du Parc, conhecida mais tarde, como La Champmesle, a primeira mulher a interpretar Fedra, personagem principal de “Phèdre”, obra de Racine, tornando-se então uma das principais atrizes da chamada "Commedie Française". Assim, Therese du Parc é  o primeiro nome feminino de que se tem registro na história do teatro.

Em “Phèdre”, o autor não apresenta hesitações e mostra o mundo da Grécia mitológica em toda a sua plenitude. A personagem é vítima da cólera divina e sua paixão pela personagem Hippolyte é muito mais uma punição dos deuses do que uma ação de sua própria vontade. Phèdre não é apenas uma personagem mitológica que sucumbe à fatalidade divina, mas o ser humano que carrega dentro de si as sementes de sua própria condenação.

No texto representado pela atriz, Racine mostra sua habilidade como poeta dramático. A ação está próxima do desenlace, com a protagonista no auge de seu desespero. Phèdre é a personagem trágica por excelência, pois não sendo inteiramente culpada nem inteiramente inocente, desperta no espectador sentimentos de compaixão e terror.

Existem boatos de que Racine comprou uma grande briga com Moliere devido ao “roubo” dessa atriz de sua trupe.  Não se sabe ao certo, mas, casada com Charles Chevillet Champmesle, dizem que Therese du Parc manteve uma relação extra-conjugal com Racine e morreu devido a um aborto malsucedido.

Artigo publicado pelo site: http://spescoladeteatro.org.br/curiosidades/09.php

 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Theda Bara

Theda Bara (Cincinnati,Ohio, EUA, 29 de julho de 1885 – Los Angeles, Califórnia, EUA, 7 de abril de 1955), nascida Theodosia Burr Goodman, foi uma atriz norte-americana do cinema mudo. Uma das primeiras vamps do cinema norte-americano, seu nome artístico era um anagrama de "Arab death" ("morte árabe"). Justificou-o no filme que a consagrou: "A Fool There Was" (Escravo de uma paixão) (1915).


Theda Bara

Na verdade, "Theda" era uma alcunha da infância para Theodosia, e "Bara" era aparentemente uma forma encurtada de seu sobrenome materno, Baranger.

Bara era uma das atrizes mais populares do cinema de sua era, além de ser um símbolo sexual dos mais adiantados do cinema. Seus papéis de mulher fatal deram-lhe a alcunha de "Vamp", que logo transformou-se em termo popular para uma mulher de ares predatórios.



Theda Bara

Junto com a atriz francesa Musidora, popularizou a personalidade vamp nos primeiros anos do cinema mudo e logo foi imitada pela atrizes rivais tais como Nita Naldi e Pola Negri.

Outros títulos típicos: "The Tiger Woman" (Coração de tigre) (1917), "Cleopatra"(1917), "When a Woman Sins" (Quando a mulher peca) (1918), "The Unchastened Woman" (Mulher libertina) (1924). Dos mais de quarenta filmes que estrelou, apenas seis chegaram até os nossos dias.

Biografia

Nascimento

Theodosia Burr Goodman nasceu em 1885 na seção de Avondale, Cincinnati, Ohio.

Seu pai, Bernard Goodman (1853-1936), era um próspero alfaiate judeu nascido na Polônia. Sua mãe, Pauline Louise de Coppett (1861-1957), nasceu na Suíça e também era de origem judia. Eles se casaram em 1882.

O irmão e a irmã de Theda eram Marque (1888-?) e Esther (1897-?), que igualmente se tornou atriz de cinema, com o nome de Lori Bara e se casou com Francis W. Getty, de Londres, em 1920.

Em 1917, a família Goodman legalmente mudou seu nome para "Bara".

Educação

Bara estudou na "Walnut Hills High School", de 1899 a 1903, e morou na 823 Hutchins Avenue. Após efetuar dois anos de estudo na Universidade de Cincinnati, foi trabalhar em produções teatrais e explorar novos projetos, mudando-se para Nova York em 1908. Fez seu debut na Broadway em "The Devil", em 1908.

Carreira

Theda Bara atuou em mais de 40 produções cinematográficas entre 1914 e 1926. As cópias completas de somente seis destas películas ainda existem. A maioria de películas de Bara foi produzida por William Fox, começando com A Fool There Was (1915) e terminando com The Lure of Ambition (1919). O fenomenal sucesso de A Fool There Was deu a William Fox o dinheiro para fundar a Fox Film Corporation, que se tornou um estúdio bem sucedido.


Theda Bara

Ela foi a mais famosa das estrelas de cinema, perdendo somente para Charlie Chaplin e Mary Pickford em popularidade. Seus mais conhecidos papéis foram os que ela interpretava em estilo "vamp", embora muitas vezes ela tentasse também interpretar heroínas, como no filme "Under Two Flags" e "Her Double Life". Ela também interpretou a Julieta, de "Romeo and Juliet", de William Shakespeare. Embora Bara tomasse seu ofício seriamente, era demasiado bem sucedida como uma mulher "arbitrária e exótica", e assim tinha dificuldades em desenvolver uma carreira mais versátil.

Muitos dos filmes de Bara foram lançadas na costa leste, primeiramente no estúdio da Fox Films. A atriz viveu com sua mãe e irmãos em Nova York por muito tempo. A ascensão de Hollywood como o centro de indústria cinematográfica americana a forçou a se mudar para Los Angeles, para filmar o épico "Cleopatra" (1917). Este filme tornou Bara um grande "hit". Nenhuma cópia conhecida de Cleopatra existe hoje, mas fotografias numerosas de Bara no traje como a rainha do Nilo sobreviveram.


Theda Bara como Cleópatra em 1917
Entre 1915 e 1919, Bara foi promovida, tornando-se a grande estrela do estúdio. Quando perdeu esse suporte, sua carreira desabou. Cansou de fazer somente papéis "vamp", não se importando em renovar seu contrato com a Fox quando expirou (era de 5 anos). Seu último filme na Fox foi "The Lure of Ambition" (1919). Depois disso, só fez outro filme em 1925, "The Unchastened Woman" da Chadwick Pictures Corporation.

Bara aposentou-se após ter feito a comédia "Madame Mystery" (1926), feita por Hal Roach, onde parodiava sua imagem vamp.

Theda Bara é a famosa a ter uma porcentagem mais elevada de filmes perdidos em comparação com outros atores/atrizes de Hollywood. Em 1937, um incêndio nos armazéns da Fox, em Nova Jersey, destruiu a maioria dos filmes mudos deste estúdio.



 
Theda Bara em Trechos do filme Cleópatra (1917)

Três de seus filmes ainda permanecem intactos, o restante foi quase totalmente perdido, tais como "Du Barry", "Carmen", "Salome" e "Camille". De "Cleopatra" ainda restam 40 segundos. Felizmente "A Fool There Was" foi preservado em uma cópia integral. "Madame Mystery" ainda existe em uma cópia de 9.5mm.

Sex symbol

Bara é frequentemente mencionada como a primeira sex symbol desta era, e em um número considerável de seus filmes apareceu em trajes transparentes, que deixaram pouco ao imaginário do público. Tais figurinos foram "banidos" dos filmes de Holywood films após o código de produção ser instaurado em 1930, e reforçado em 1934.


Theda Bara
 
Bara foi fotografada com diversos figurinos temáticos, que eram de uso popular para promoção de atores e atrizes de ares misteriosos, juntamente com um cenário exótico. Os estúdios a promoveram com uma campanha de publicidade maciça, a descrevendo como nascida no Egito, filha de uma atriz francesa e de um escultor italiano. Além disso, disseram que ela havia passado seus primeiros anos no deserto do Saara, sob a sombra da esfinge, tendo se mudado para a França para estudar teatro (sendo que na realidade ela jamais fora ao Egito ou a França). Ela foi chamada de "Serpente do Nilo", o que a incentivou a comentar sobre misticismo e ocultismo em suas entrevistas.

A essa altura, devido a fama de Theda Bara, sua imagem vamp se tornou notória e começou a ser referida em canções populares. Em "Red-Hot Hannah": "I know things that Theda Bara's just startin' to learn - make my dresses from asbestos, I'm liable to burn....". A música "Rebecca Came Back From Mecca", diz: "She's as bold as Theda Bara; Theda's bare but Becky's bare-er", e a música "If I had a man like Valentino" possui o refrão, "Theda Bara sure would die; she would never roll another eye".

Casamento e "aposentadoria"

Bara casou com o diretor britânico Charles Brabin (1883-1957) em 1921. Sua carreira começou, então, a decair, sendo finalmente encerrada com a comédia "Madame Mystery" em 1926. No ano seguinte, Bara fez uma aparição bem sucedida ( porém mal comentada ) na Broadway em "The Blue Flame".

Embora sempre tenha expressado o interesse no retorno a atuar em cinema, seu marido não considerou apropriado que sua esposa tivesse uma carreira.



Theda Bara

Ela fez uma série de entrevistas no rádio: em 8 de junho de 1936 na transmissão do Lux Radio Theater; 7 de março de 1939 como convidada da NBC e em 8 de novembro de 1939 na CBS.

Bara gastou o restante de sua vida vivendo entre Hollywood e Nova York, no conforto e na riqueza relativa. O produtor Buddy DeSylva e a Columbia Pictures expressaram interesse, em 1949, em fazer um filme da biografia de sua vida, com a estrela Betty Hutton, mas o projeto nunca foi materializado.

Morte

A atriz morreu de câncer de estômago em 1955, na cidade de Los Angeles, Califórnia. Foi enterrada como Theda Bara Brabin em Forest Lawn Memorial Park Cemetery na cidade de Glendale, Califórnia.



Theda Bara

Legado

- Theda Bara tem uma estrela na Calçada da fama, em Hollywood.  - No ano de 1994 foi honrada com sua imagem nos selos dos Estados Unidos, projetado pelo caricaturista Al Hirschfeld.
- Em junho 1996, duas biografias apareceram: de Ron Genini "Theda Bara: A Biography" (McFarland) e de Eve Golden, "Vamp"(Emprise).
 - Em outubro de 2005 a TimeLine Films premiou a filmobiografia "Theda Bara: The Woman With the Hungry Eyes".
 - Um flme da britânica Georgina Starr intitulado "Theda" (baseado nas histórias sobre os filmes perdidos de Bara) foi premiado em novembro de 2006, na cidade de Londres.
 - A Fort Lee Film Commission dedicou a Main Street e a Linwood Avenue in Fort Lee, Nova Jersey, como "Theda Bara Way" em maio de 2006, em honra a Bara, que fez muitos filmes nos estúdios da Fox na Linwood e na Main.
 - A imagem de Theda Bara é símbolo do Chicago International Film Festival - um close de seus olhos em preto e branco, como frames repetidos em uma tira de película.  

Artigo publicado pelo site: http://pt.wikipedia.org/wiki/Theda_Bara

terça-feira, 11 de junho de 2013

Florbela Espanca


Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de Dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 de Dezembro de 1930), batizada como Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, foi uma poetisa portuguesa. A sua vida, de apenas trinta e seis anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização, feminilidade e panteísmo.

Florbela Espanca
Biografia

Filha de Antónia da Conceição Lobo e do republicano João Marya Espanca nasceu no dia 8 de Dezembro de 1894 em Vila Viçosa, no Alentejo. O seu pai herdou a profissão do sapateiro, mas passou a trabalhar como antiquário, negociante de cabedais, desenhista, pintor, fotógrafo e cinematografista. Foi um dos introdutores do "Vitascópio de Edison" em Portugal.

O seu pai era casado com Mariana do Carmo Toscano. Embora sua esposa fosse estéril, João Maria teve filhos de um caso extraconjugal; e assim nasceram Florbela e, três anos depois, Apeles, ambos filhos de Antónia da Conceição Lobo, e registrados como filhos ilegítimos de pai incógnito. João Maria Espanca criou-os na sua casa, e, apesar de Mariana ter passado a ser madrinha de baptismo dos dois, João Maria só reconheceu Florbela como a sua filha em cartório dezoito anos após a sua morte.


Florbela aos três anos de idade

Entre 1899 e 1908, Florbela frequentou a escola primária em Vila Viçosa. Foi naquele tempo que passou a assinar os seus textos Flor d’Alma da Conceição. As suas primeiras composições poéticas datam dos anos 1903 - 1904, o poema "A Vida e a Morte", o soneto em redondilha maior em homenagem ao irmão Apeles, e um poema escrito por ocasião do aniversário do pai. Em 1907, Florbela escreveu o seu primeiro conto: "Mamã!" No ano seguinte, faleceu a sua mãe, Antónia, com apenas vinte e nove anos.



Florbela Espanca

Florbela ingressou então no Liceu Masculino André de Gouveia em Évora, onde permaneceu até 1912. Foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar o curso secundário. Durante os seus estudos no Liceu, Florbela requisitou diversos livros na Biblioteca Pública de Évora, aproveitando então para ler obras de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro, Garrett. Quando ocorreu a revolução de 5 de Outubro de 1910, Florbela está há dois dias com a família na capital, no Francfort Hotel Rossio, mas não se conhecem comentários seus à sua vivência deste dia.


Florbela Espanca
Em 1913 casou-se em Évora com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega da escola. O casal morou primeiro em Redondo. Em 1915 instalou-se na casa dos Espanca em Évora, por causa das dificuldades financeiras.

Em 1916, de volta a Redondo, a poetisa reuniu uma seleção da sua produção poética desde 1915, inaugurando assim o projeto Trocando Olhares. A coletânea de oitenta e cinco poemas e três contos serviu-lhe mais tarde como ponto de partida para futuras publicações. Na época, as primeiras tentativas de promover as suas poesias falharam.



Florbela Espanca

No mesmo ano, Florbela iniciou a colaborar como jornalista em Modas & Bordados (suplemento de O Século de Lisboa), em Notícias de Évora e em A Voz Pública, também eborense. A poetisa regressou de novo a esta cidade em 1917. Completou o 11º ano do Curso Complementar de Letras e matriculou-se na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi uma das catorze mulheres entre trezentos e quarenta e sete alunos inscritos.



Florbela Espanca

Um ano mais tarde a escritora sofreu as consequências de um aborto involuntário, que lhe teria infectado os ovários e os pulmões. Repousou em Quelfes (Olhão), onde apresentou os primeiros sinais sérios de neurose.

Em 1919 saiu a sua primeira obra, Livro de Mágoas, um livro de sonetos. A tiragem (duzentos exemplares) esgotou-se rapidamente. Um ano mais tarde, sendo ainda casada, a escritora passou a viver com António José Marques Guimarães, alferes de Artilharia da Guarda Republicana.

Em meados do 1920 interrompeu os estudos na faculdade de Direito. Em 29 de Junho de 1921 pôde finalmente casar-se com António Guimarães. O casal passou a residir no Porto, mas, no ano seguinte, transferiu-se para Lisboa, onde Guimarães se tornou chefe de gabinete do Ministro do Exército.



Manuscrito do poema "O nosso mundo", de Florbela Espanca (Acervo BN/Portugal)

Em 1922, a 1 de Agosto, a recém fundada Seara Nova publicou o seu soneto "Prince charmant…", dedicado a Raul Proença. Em Janeiro de 1923 veio a lume a sua segunda coletânea de sonetos, Livro de Sóror Saudade, edição paga pelo pai da poetisa. Para sobreviver, Florbela começou a dar aulas particulares de português.

Em 1925, divorciou-se pela segunda vez. Esta situação abalou-a muito. O seu ex-marido, António Guimarães, abriu mais tarde uma agência, "Recortes", que colecionava notas e artigos sobre vários autores. O seu espólio pessoal reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981. Ao todo são 133 recortes. Ainda em 1925, a poetisa casou com o médico Mário Pereira Lage, que conhecia desde 1921 e com quem vivia desde 1924. O casamento decorreu em Matosinhos, no Distrito do Porto, onde o casal passou a morar a partir de 1926.



Florbela Espanca (jovem)

Em 1927 a autora principiou a sua colaboração no jornal D. Nuno de Vila Viçosa, dirigido por José Emídio Amaro. Naquele tempo não encontrava editor para a coletânea Charneca em Flor. Preparava também um volume de contos, provavelmente O Dominó Preto, publicado postumamente apenas em 1982. Começou a traduzir romances para as editoras Civilização e Figueirinhas do Porto.

No mesmo ano, Apeles Espanca, o irmão da escritora, faleceu num trágico acidente de avião. A sua morte foi devastadora para Florbela. Em homenagem ao irmão, Florbela escreveu o conjunto de contos de As Máscaras do Destino, volume publicado postumamente em 1931. Entretanto, a sua doença mental agravou-se bastante. Em 1928 ela teria tentado o suicídio pela primeira vez.


Florbela e o Irmão Apeles Espanca (1904)

Em 1930 Florbela começou a escrever o seu Diário do Último Ano, publicado só em 1981. A 18 de Junho principiou a correspondência com Guido Battelli, professor italiano, visitante na Universidade de Coimbra, responsável pela publicação da Charneca em Flor em 1931. Na altura, a poetisa colaborou também no Portugal feminino de Lisboa, na revista Civilização e no Primeiro de Janeiro, ambos do Porto.

Florbela tentou o suicídio por duas vezes mais em Outubro e Novembro de 1930, na véspera da publicação da sua obra-prima, Charneca em Flor. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, a poetisa perdeu definitivamente a vontade de viver. Não resistiu à terceira tentativa do suicídio. Faleceu em Matosinhos, no dia do seu 36º aniversário, a 8 de Dezembro de 1930. A causa da morte foi a sobre dose de barbitúricos.



Florbela Espanca

A poetisa teria deixado uma carta confidencial com as suas últimas disposições, entre elas, o pedido de colocar no seu caixão os restos do avião pilotado por Apeles quando sofreu o acidente. O corpo dela jaz, desde 17 de Maio de 1964, no cemitério de Vila Viçosa, a sua terra natal.




Florbela Espanca

Leia-se a quadra desse "admirável soneto que é o seu voo quebrado e que principia assim":

"Não tenhas medo, não! Tranquilamente,//Como adormece a noite pelo outono,//Fecha os olhos, simples, docemente,//Como à tarde uma pomba que tem sono…"
 
Obra

Autora poli-facetada: escreveu poesia, contos, um diário e epístolas; traduziu vários romances e colaborou ao longo da sua vida em revistas e jornais de diversa índole, Florbela Espanca antes de tudo é poetisa. É à sua poesia, quase sempre em forma de soneto, que ela deve a fama e o reconhecimento. A temática abordada é principalmente amorosa. O que preocupa mais a autora é o amor e os ingredientes que romanticamente lhe são inerentes: solidão, tristeza, saudade, sedução, desejo e morte. A sua obra abrange também poemas de sentido patriótico, inclusive alguns em que é visível o seu patriotismo local: o soneto "No meu Alentejo" é uma glorificação da terra natal da autora.

Somente duas antologias, Livro de Mágoas (1919) e Livro de Sóror Saudade (1923), foram publicadas em vida da poetisa. Outras, Charneca em Flor (1931), Juvenília (1931) e Reliquiae (1934) saíram só após o seu falecimento. Toda a obra poética de Florbela foi reunida por Guido Battelli num volume chamado Sonetos Completos, publicado pela primeira vez em 1934. Em 1978 tinham saído 23 edições do livro. As peças anteriores às primeiras publicações da poetisa foram reconstituídas por Mária Lúcia Dal Farra, que em 1994 editou o texto de Trocando Olhares.

A prosa de Florbela exprime-se através do conto (em que domina a figura do irmão da poetisa), de um diário, que antecede a sua morte, e em cartas várias. Algumas peças da sua correspondência são de natureza familiar, outras tratam de questões relacionadas com a sua produção literária, quer num sentido interrogativo quanto à sua qualidade, quer quanto a aspectos mais práticos, como a sua publicação. Nas diferentes manifestações epistolares sobressaem qualidades que nem sempre estão presentes na restante produção em prosa - naturalidade e simplicidade.

António José Saraiva e Óscar Lopes na sua História da Literatura Portuguesa descrevem Florbela Espanca como sonetista de "laivos anterianos" e semelhante a António Nobre. Admitem que foi "uma das mais notáveis personalidades líricas isoladas, pela intensidade de um emotivo erotismo feminino, sem precedentes entre nós [portugueses], com tonalidades ora egoístas ora de uma sublimada abnegação que ainda lembra Sóror Mariana, ora de uma expansão de amor intenso e instável(…)".

A obra da Florbela "precede de longe e estimula um mais recente movimento de emancipação literária da mulher, exprimindo nos seus acentos mais patéticos a imensa frustração feminina das (…) opressivas tradições patriarcais."

Rolando Galvão, autor de um artigo sobre Florbela Espanca publicado na página eletrónica Vidas Lusófonas, caracteriza assim a obra florbeliana:

"Como dizem vários estudiosos da sua pessoa e obra, Florbela surge desligada de preocupações de conteúdo humanista ou social. Inserida no seu mundo pequeno burguês, como evidencia nos vários retratos que de si faz ao longo dos seus escritos. Não manifesta interesse pela política ou pelos problemas sociais. Diz-se conservadora. (…) O seu egocentrismo, que não retira beleza à sua poesia, é por demais evidente para não ser referenciado praticamente por todos. Sedenta de glória, diz Henrique Lopes de Mendonça, transcrito por Carlos Sombrio.

Na sua escrita há um certo número de palavras em que insiste incessantemente. Antes de mais, o EU, presente, dir-se-á, em quase todas as peças poéticas. Largamente repetidos vocábulos reflexos da paixão: alma, amor, saudade, beijos, versos, poeta, e vários outros, e os que deles derivam. Escritos de âmbito para além dos que caracterizam essa paixão não são abundantes, particularmente na obra poética. Salvo no que se refere ao seu Alentejo. Não se coloca como observadora distante, mesmo quando tal parece, exterior a factos, ideias, acontecimentos."

O autor do artigo lembra também a correspondência da poetisa com o irmão, Apeles, e com uma amiga próxima, que apenas viu em retrato. Repara que os excessos verbais da escritora são provocados pela sua imoderação para exprimir uma paixão. A sua exaltação do amor fraternal é considerada fora do comum. Galvão repara que esses limites alargados na expressão do amor, da amizade e das afeições, são na obra florbeliana uma constante.

Florbela Espanca por outros poetas

Florbela Espanca causou grande impressão entre seus pares e entre literatos e público de seu tempo e de tempos posteriores. Além da influência que seus versos tiveram nos versos de tantos outros poetas, são aferidas também algumas homenagens prestadas por outros eminentes poetas à pessoa humana e lírica da poetisa. Manuel da Fonseca, em seu "Para um poema a Florbela" de 1941, cantava "(…)«E Florbela, de negro,/ esguia como quem era,/ seus longos braços abria/ esbanjando braçados cheios/ da grande vida que tinha!»". Também Fernando Pessoa, em um poema datilografado e não datado de nome "À memória de Florbela Espanca", descreve-a como "«alma sonhadora/ Irmã gêmea da minha!»".

Florbela Espanca na música

O grupo musical português Trovante musicou o soneto "Ser poeta", incluído no volume Charneca em Flor. A canção intitulada "Perdidamente", com música de João Gil, tornou-se numa das músicas mais populares da banda. Faz parte do álbum Terra Firme, lançado em 1987. O cantor e compositor brasileiro Fagner interpretou o poema "Fanatismo", da coletânea Soror Saudade, com sua composição do mesmo nome no álbum Traduzir-se (1981).

Fonte de pesquisa: http://pt.wikipedia.org/wiki/Florbela_Espanca

Pagu

Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudônimo de Pagu, (São João da Boa Vista, 9 de junho de 1910 — Santos, 12 de dezembro de 1962 ) foi uma escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista e jornalista brasileira. Teve grande destaque no movimento modernista iniciado em 1922, embora não tivesse participado da Semana de Arte Moderna, tendo na época apenas doze anos de idade.

Militante comunista, foi a primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas.


Retrato de Pagu feito no final da década de 1920.

Biografia

Bem antes de se tornar Pagu, apelido que lhe foi dado pelo poeta Raul Bopp, Zazá, como era conhecida em família, já era uma mulher avançada para os padrões da época, pois cometia algumas “extravagâncias” como fumar na rua, usar blusas transparentes, manter os cabelos bem cortados e eriçados e dizer palavrões. Seu comportamento não era compatível com sua origem familiar, proveniente de uma família conservadora e tradicional.

Em 1925, com quinze anos, passou a colaborar no Brás Jornal, assinando Patsy.

Embora tenha se tornado musa dos modernistas, Pagu não participou da Semana de Arte Moderna. Tinha apenas 12 anos em 1922, quando a Semana se realizou. Entretanto, com 18 anos, mal completara o curso na Escola Normal da Capital (São Paulo, 1928) se integra ao movimento antropofágico, de cunho modernista, sob a influência de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. O apelido Pagu surgiu de um erro do poeta modernista Raul Bopp, autor de Cobra Norato. Bopp inventou este apelido ao dedicar-lhe um poema, porque imaginou que seu nome fosse Patrícia Goulart e por isso fez uma brincadeira com as primeiras sílabas do nome.

Com 18 anos, mal completara o Curso na Escola Normal da Capital (São Paulo, 1928)

Em 1930, um escândalo para a sociedade conservadora de então: Oswald separa-se de Tarsila e casa-se com Pagu. Especula-se que eles eram amantes desde a época em que Oswald era casado. No mesmo ano nasceu Rudá de Andrade, segundo filho de Oswald e primeiro de Pagu. Os dois se tornaram militantes do Partido Comunista Brasileiro.

Da esquerda para a direita: Pagu, Elsie Lessa, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Eugênia Álvaro Moreyra por volta de 1928

Ao participar da organização de uma greve de estivadores em Santos, Pagu foi presa pela polícia política de Getúlio Vargas. Foi a primeira de uma série de 23 prisões ao longo da vida. Logo depois de ser solta, em 1933, partiu para uma viagem pelo mundo, deixando no Brasil o marido e o filho. No mesmo ano publicou o romance Parque Industrial, sob o pseudônimo de Mara Lobo.

 Pagu e Oswald de Andrade

Em 1935 foi presa em Paris como comunista estrangeira, com identidade falsa, sendo repatriada para o Brasil. Separou-se definitivamente de Oswald, após muitas brigas e ciúmes. Retomou sua atividade jornalística, sendo novamente presa e torturada pelas forças da ditadura de Getúlio Vargas, ficando na cadeia por cinco anos. Nesses cinco anos, seu filho foi criado por Oswald.

 Patrícia na década de 1930

Ao sair da prisão, em 1940, rompeu com o Partido Comunista, passando a defender um socialismo de linha trotskista. Integrou a redação de A Vanguarda Socialista junto com seu marido Geraldo Ferraz, o crítico de arte Mário Pedrosa, Hilcar Leite e Edmundo Moniz.

Ao participar da organização de uma greve de estivadores em Santos, Pagu é presa pela polícia política de Getúlio Vargas.

Casou novamente com Geraldo Ferraz, e desta união nasceu seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz, em 18 de junho de 1941. Passou a morar com os dois filhos e o marido.

Nesta mesma época viaja à China, obtendo as primeiras sementes de soja que foram introduzidas no Brasil.

Em 1945 lançou novo romance, A Famosa Revista, escrito em parceria com o marido Geraldo Ferraz. Tentou, sem sucesso, uma vaga de deputada estadual nas eleições de 1950.

Em 1952 frequentou a Escola de Arte Dramática de São Paulo, levando seus espetáculos a Santos. Ligada ao teatro de vanguarda, apresentou sua tradução de A Cantora Careca de Ionesco. Traduziu e dirigiu Fando e Liz de Fernando Arrabal, numa montagem amadora onde estreava o jovem artista Plínio Marcos.

Conhecida como grande animadora cultural em Santos, passou a residir com o marido e os dois filhos. Conviveu e incentivou jovens talentos santistas que apenas começavam suas carreiras, como o ator e dramaturgo Plínio Marcos e o compositor Gilberto Mendes. Dedicou-se em especial ao teatro, particularmente no incentivo a grupos amadores.

Ainda trabalhava como crítica de arte, quando foi acometida de um câncer. Viajou a Paris para se submeter a uma cirurgia, sem resultados positivos. Decepcionada e desesperada por estar doente, Patrícia tentou o suicídio, o que não se concretizou. Sobre o episódio, escreveu no panfleto "Verdade e Liberdade": "Uma bala ficou para trás, entre gazes e lembranças estraçalhadas". Voltou ao Brasil e morreu em 12 de dezembro de 1962, em decorrência da doença.

Em 2004 a catadora de papel Selma Morgana Sarti, em Santos, encontrou no lixo uma grande quantidade de fotos e documentos da escritora e do jornalista Geraldo Ferraz, seu último companheiro. Estes fazem parte atualmente do arquivo da UNICAMP.

Em 2005, a cidade de São Paulo comemorou os 95 anos de nascimento de Pagu com uma vasta programação, que incluiu lançamento de livros, exposição de fotos, desenhos e textos da homenageada, apresentação de um espetáculo teatral sobre sua vida e inauguração de uma página na Internet. No dia exato de seu nascimento, convidados compareceram com trajes de época a uma festa Pagu, realizada no Museu da Imagem e do Som.

Outra faceta de Pagu é como desenhista e ilustradora. Participou da Revista de Antropofagia, publicada entre 1928 e 1929, entre outras. Recentemente foi publicado o livro Caderno de Croquis de Pagu, com uma coletânea de trabalhos da artista, bem como foi realizada uma exposição de alguns de seus desenhos na Galeria Hermitage.

 Outra faceta de Pagu é como desenhista e ilustradora.

Literatura

Pagu publicou os romances Parque Industrial (edição da autora, 1933), sob o pseudônimo Mara Lobo, considerado o primeiro romance proletário brasileiro, e A Famosa Revista (Americ-Edit, 1945), em colaboração com Geraldo Ferraz. Parque Industrial foi publicado nos Estados Unidos em tradução de Kenneth David Jackson em 1994 pela Editora da University of Nebraska Press.

Escreveu também contos policiais, sob o pseudônimo King Shelter, publicados originalmente na revista Detective, dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, e depois reunidos em Safra Macabra (Livraria José Olympio Editora, 1998).

Em seu trabalho, junto a grupos teatrais, revelou e traduziu grandes autores até então inéditos no Brasil como James Joyce, Eugène Ionesco, Fernando Arrabal e Octavio Paz.

Representações na cultura

Sua literatura já foi tema de dissertações de mestrado. No livro A "moscouzinha" brasileira: cenários e personagens do cotidiano operário de Santos (1930 - 1954). São Paulo, Humanitas, 2007 é retratado um conflito em Santos em 1931 que contou com a participação de Patrícia Galvão e resultou na morte de um ensacador.

Em 1988, a vida de Pagu foi contada no filme Eternamente Pagu (1987), no primeiro longa metragem dirigido por Norma Benguell, com Carla Camurati no papel-título, Antônio Fagundes como Oswald de Andrade e Esther Góes no papel de Tarsila do Amaral.

Foi tema de dois documentários, o primeiro baseado na obra de Lúcia Maria Teixeira Furlani “Patrícia Galvão – livre na imaginação no espaço e no tempo” (Editora Unisanta, 1988), com o título homônimo e ganhador do prêmio Exu Jorge Amado, da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, sob a direção de seu filho com Oswald de Andrade, Rudá de Andrade e também do cineasta, Marcelo Tassara. Outro pelo cineasta Ivo Branco, com o título Eh, Pagu!, Eh!. Aparece como personagem do filme O Homem do Pau Brasil.

Foi retratada como personagem na minissérie Um Só Coração (2004), interpretada por Miriam Freeland.

Há uma canção homônima, Pagu, composição de Rita Lee e Zélia Duncan. Já interpretada por Maria Rita (álbuns Maria Rita e Segundo: Ao Vivo ).

A história de Pagu também chegou aos palcos do teatro. No ano do centenário de seu nascimento entrou em cartaz o espetáculo Dos Escombros de Pagu, baseado no livro homônimo assinado por Tereza Freire.

Fonte de pesquisa: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pagu

Manifesto contra a criminalização das mulheres que praticam aborto

Centenas de mulheres no Brasil estão sendo perseguidas, humilhadas e condenadas por recorrerem à prática do aborto. Isso ocorre porque ainda temos uma legislação do século passado – 1940 –, que criminaliza a mulher e quem a ajudar. A criminalização do aborto condena as mulheres a um caminho de clandestinidade, ao qual se associam graves perigos para as suas vidas, saúde física e psíquica, e não contribui para reduzir este grave problema de saúde pública. As mulheres pobres, negras e jovens, do campo e da periferia das cidades, são as que mais sofrem com a criminalização. São estas que recorrem a clínicas clandestinas e a outros meios precários e inseguros, uma vez que não podem pagar pelo serviço clandestino na rede privada, que cobra altíssimos preços, nem podem viajar a países onde o aborto é legalizado, opções seguras para as mulheres ricas. A estratégia dos setores ultra conservadores, religiosos, intensificada desde o final da década de 1990, tem sido o “estouro” de clínicas clandestinas que fazem aborto. Os objetivos destes setores conservadores são punir as mulheres e levá-las à prisão. Em diferentes Estados, os Ministérios Públicos, ao invés de garantirem a proteção das cidadãs, têm investido esforços na perseguição e investigação de mulheres que recorreram à prática do aborto. Fichas e prontuários médicos de clínicas privadas que fazem procedimento de aborto foram recolhidos, numa evidente disposição de aterrorizar e criminalizar as mulheres. No caso do Mato Grosso do Sul, foram quase 10 mil mulheres ameaçadas de indiciamento; algumas já foram processadas e punidas com a obrigação de fazer trabalhos em creches, cuidando de bebês, num flagrante ato de violência psicológica contra estas mulheres. A estas ações efetuadas pelo Judiciário somam-se os maus tratos e humilhação que as mulheres sofrem em hospitais quando, em processo de abortamento, procuram atendimento. Neste mesmo contexto, o Congresso Nacional aproveita para arrancar manchetes de jornais com projetos de lei que criminalizam cada vez mais as mulheres. Deputados elaboram Projetos de Lei como o “bolsa estupro”, que propõe uma bolsa mensal de um salário mínimo à mulher para manter a gestação decorrente de um estupro. A exemplo deste PL, existem muitos outros similares. A criminalização das mulheres e de todas as lutas libertárias é mais uma expressão do contexto reacionário, criado e sustentado pelo patriarcado capitalista globalizado em associação com setores religiosos fundamentalistas. Querem retirar direitos conquistados e manter o controle sobre as pessoas, especialmente sobre os corpos e a sexualidade das mulheres. Ao contrário da prisão e condenação das mulheres, o que necessitamos e queremos é uma política integral de saúde sexual e reprodutiva que contemple todas as condições para uma prática sexual segura. A maternidade deve ser uma decisão livre e desejada e não uma obrigação das mulheres. Deve ser compreendida como função social e, portanto, o Estado deve prover todas as condições para que as mulheres decidam soberanamente se querem ou não ser mães, e quando querem. Para aquelas que desejam ser mães devem ser asseguradas condições econômicas e sociais, através de políticas públicas universais que garantam assistência a gestação, parto e puerpério, assim como os cuidados necessários ao desenvolvimento pleno de uma criança: creche, escola, lazer, saúde. As mulheres que desejam evitar gravidez devem ter garantido o planejamento reprodutivo e as que necessitam interromper uma gravidez indesejada deve ser assegurado o atendimento ao aborto legal e seguro no sistema público de saúde. Neste contexto, não podemos nos calar! Nós, sujeitos políticos, movimentos sociais, organizações políticas, lutadores e lutadoras sociais e pelos diretos humanos, reafirmamos nosso compromisso com a construção de um mundo justo, fraterno e solidário, nos rebelamos contra a criminalização das mulheres que fazem aborto, nos reunimos nesta Frente para lutar pela dignidade e cidadania de todas as mulheres. Nenhuma mulher deve ser impedida de ser mãe. E nenhuma mulher pode ser obrigada a ser mãe. Por uma política que reconheça a autonomia das mulheres e suas decisões sobre seu corpo e sexualidade. Pela defesa da democracia e do principio constitucional do Estado laico, que deve atender a todas e todos, sem se pautar por influências religiosas e com base nos critérios da universalidade do atendimento da saúde! Por uma política que favoreça a mulheres e homens um comportamento preventivo, que promova de forma universal o acesso a todos os meios de proteção à saúde, de concepção e anti concepção, sem coerção e com respeito. Nenhuma mulher deve ser presa, maltratada ou humilhada por ter feito aborto! Dignidade, autonomia, cidadania para as mulheres! Pela não criminalização das mulheres e pela legalização do aborto! Frente nacional pelo fim da criminalização das mulheres e pela legalização do aborto!

Fonte de pesquisa: http://frentepelodireitoaoaborto.blogspot.com.br/2008/09/manifesto-contra-criminalizao-das.html